para o meu amigo Çagrihan Sonbahar
O poder da máquina ideológica de Hollywood é alguma coisa que não se pode aquilatar senão da mesma maneira que o poderio militar mantido pelos EUA. Vejam vocês, eu não quero falar mal de todo e qualquer americano nem muito menos desprezar as contribuições desse povo, seja na cultura, seja em outras áreas de atividade humana, mas a questão é que os EUA se esforçam de diversas maneiras e não apenas no seu corpo diplomático para descaracterizar e denegrir a imagem de outros povos, isso obviamente vai se tornando mais difícil em tempos globalizados, mas ainda persiste.
Mas vamos ao caso em questão. Aos 15 anos eu assisti “Expresso da meia noite” do diretor Alan Parker, o filme é supostamente baseado no livro homônimo de Billy Hayes, onde este narra um experiência real e pessoal, sendo o roteiro fruto da “adaptação” de ninguém menos do que Oliver Stone¹. Com uma interpretação vívida de Brad Davis no papel de Hayes, o filme é – do ponto de vista dramático – bastante denso e galvanizante.
Basicamente “narra” os anos em que Hayes esteve preso na Turquia após ser condenado por tráfico internacional de drogas, mas o que importa, óbvio, são não apenas os episódios, mas o modo como a experiência é estetizada. Dos filmes que já vi até hoje poucos foram tão competentes como esse em criar uma atmosfera tão próxima do que o é o limiar da loucura e da desintegração paulatina da sanidade num ambiente opressivo e sádico.
O problema é que para criar essa caracterização ele acaba não apenas se valendo de cenas grotescas criadas ficcionalmente e completamente fora da própria obra de Hayes, mas o que é ainda mais delirante, transforma praticamente todo um povo em agentes da perversão e da maldade, não há praticamente um personagem turco que contrabalancei essa asserção.
Lamentavelmente, como não tive interesse em procurar outras referências sobre o povo turco na minha adolescência e como isso também não me chegou de outras maneiras, guardei durante alguns anos uma imagem um tanto sinistra dos turcos e de seus hábitos por conta desse filme: ignorância pura é o que se deve dizer.
O filme foi rodado em Malta porque as autoridades turcas não concordaram em apoiar uma propaganda negativa tão violenta que seria|foi realizada. Além disso, durante muitos anos foi proibida também sua exibição e distribuição na Turquia.
O trailer do filme a época já dá uma mostra de como a película cumpre com uma política internacional difundida e difusa – não é questão do filme ser encomendado ou não – de bombardeio dos EUA aos outros povos quem mantém hábitos distantes de seu ideário ocidental, confiram aí:
As impressões que o filme me deixou sobre os turcos, no entanto e obviamente, não poderiam ter perdurado muito. Não vou aqui fazer elogios rasgados ao povo turco e sua história que conta por exemplo com um controverso massacre de armênios no ocaso do Império Otomano, além do problema enfrentado pelos curdos ainda hoje, mas daí a descrevê-los como um povo bestial e repulsivo vai uma distância absurda.
A Turquia é herdeira primeira e principal do Império Otomano, tendo antes sido herdeira do último esforço de manutenção do Império Romano. Com um legado como esse não se pode considerar que não hajam contribuições importantes para a cultura em suas diversas manifestações como música, literatura, filosofia, arquitetura, culinária, ciência entre outras. Pensar o contrário é querer ser mais que míope.
Desde que se tornou um Estado Nação em 1923, na luta pós fim da primeira guerra mundial contra a repartição do território pelos “aliados” vencedores da 1° Guerra Mundial e ao mesmo tempo contra a manutenção dos califados do Império Otomano, a Turquia se constituiu numa República onde vigora o laicismo e onde as mulheres passaram a ter direito de voto muito antes do que inúmeros países da Europa.
Quando morei em Londres conheci bastante turcos e não me recordo de ter tido problema com nenhum deles, pelo contrário, mantinha boas conversas com a maior parte deles e fiz um grande amigo o que me levou até mesmo a visitar a Turquia para conhecer o país. Passei cinco dias em Istambul e minhas impressões lá também foram muito boas, mas isso é história para um outro momento.
O cinema, a música, a literatura entre outras artes e manifestações humanas, nos permitem uma aproximação que muitas vezes não é possível de outra forma. Nesse sentido é que acho importante buscar estar antenado com cenas e formações culturais que estão presentes no mundo agora mesmo (especialmente as hostilizadas) e que ultrapassam simplesmente a esfera de influência dos EUA e da cultura ocidental de um modo mais geral.
Esse interesse é importante por diversas razões que me parecem desnecessárias citar, mas para ficar em apenas duas entre as mais importantes: nos permitem refletir nossa própria cultura sobre um outro ponto de vista e abre caminhos para a transformação pelo diálogo ao invés da imposição.
Obviamente que estamos contaminados com a vida em nosso ambiente cultural e nem sempre podemos nos envolver com temas “estrangeiros” de maneira intensa e aberta, essa não é a questão, mas não devemos liquidar os esforços no tocante a isso.
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Nesta direção me parece também que o contato com as reflexões e manifestações internas das contradições de um povo – de si para si mesmo – são material mais interessante para construirmos com independência nossas próprias considerações que representações, em geral superficiais, que outros povos fazem deste povo.
Partindo dessa premissa não adianta ficar assistindo filme americano que narre os “arcaicos” hábitos dos povos do Oriente Médio ou da Ásia ou dos aborígenes ou mesmo as lendas de anaconda da “Selva” Amazônica.
A autocrítica é fundamental para qualquer desenvolvimento e nesse sentido sempre permanecerá como uma característica da vitalidade cultural, ademais a autocrítica é realizada com o conhecimento da idiossincrasia e não por meio da elevação obrigatória de um lugar assumido a priori como o lugar onde se deveria estar.
Entrei nesse tema porque só recentemente vi um antigo filme turco de muita qualidade no que a arte diz aos sentimentos humanos e que não se pode considerar seja uma celebração ufanista do povo turco: também foi censurado na Turquia (embora o fato aqui envolva muito e talvez mais o realizador Yilmaz Guney). Trata-se de “Yol” (que quer dizer estrada).
Não deixa de ser mostra da qualidade do filme, embora isso de longe seja o que menos represente o valor desta obra, que ele tenha ganho a Palma de Ouro em Cannes em 1982.
No que diz respeito a representação do caráter do povo turco, é muito mais complexo do que o maniqueísmo vulgar esboçado de maneira não completamente compreensível em “O expresso da meia noite”. Não vou dizer mais sobre “Yol”, fica aí a recomendação para quem obviamente está interessado em todos estes temas.
1 Vale a pena ler este artigo sobre as mentiras de o “Expresso da meia noite” para quem já assistiu o filme.

