Da importância de assistir filmes iranianos e malineses

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para o meu amigo Çagrihan Sonbahar

O poder da máquina ideológica de Hollywood é alguma coisa que não se pode aquilatar senão da mesma maneira que o poderio militar mantido pelos EUA. Vejam vocês, eu não quero falar mal de todo e qualquer americano nem muito menos desprezar as contribuições desse povo, seja na cultura, seja em outras áreas de atividade humana, mas a questão é que os EUA se esforçam de diversas maneiras e não apenas no seu corpo diplomático para descaracterizar e denegrir a imagem de outros povos, isso obviamente vai se tornando mais difícil em tempos globalizados, mas ainda persiste.

Mas vamos ao caso em questão. Aos 15 anos eu assisti “Expresso da meia noite” do diretor Alan Parker, o filme é supostamente baseado no livro homônimo de Billy Hayes, onde este narra um experiência real e pessoal, sendo o roteiro fruto da “adaptação” de ninguém menos do que Oliver Stone¹. Com uma interpretação vívida de Brad Davis no papel de Hayes, o filme é –  do ponto de vista dramático – bastante denso e galvanizante.

Basicamente “narra” os anos em que Hayes esteve preso na Turquia após ser condenado por tráfico internacional de drogas, mas o que importa, óbvio, são não apenas os episódios, mas o modo como a experiência é estetizada. Dos filmes que já vi até hoje poucos foram tão competentes como esse em criar uma atmosfera tão próxima do que o é o limiar da loucura e da desintegração paulatina da sanidade num ambiente opressivo e sádico.

O problema é que para criar essa caracterização ele acaba não apenas se valendo de cenas grotescas criadas ficcionalmente e completamente fora da própria obra de Hayes, mas o que é ainda mais delirante, transforma praticamente todo um povo em agentes da perversão e da maldade, não há praticamente um personagem turco que contrabalancei essa asserção.

Lamentavelmente, como não tive interesse em procurar outras referências sobre o povo turco na minha adolescência e como isso também não me chegou de outras maneiras, guardei durante alguns anos uma imagem um tanto sinistra dos turcos e de seus hábitos por conta desse filme: ignorância pura é o que se deve dizer.

O filme foi rodado em Malta porque as autoridades turcas não concordaram em apoiar uma propaganda negativa tão violenta que seria|foi realizada. Além disso, durante muitos anos foi proibida também sua exibição e distribuição na Turquia.

O trailer do filme a época já dá uma mostra de como a película cumpre com uma política internacional difundida e difusa – não é questão do filme ser encomendado ou não – de bombardeio dos EUA aos outros povos quem mantém hábitos distantes de seu ideário ocidental, confiram aí:

As impressões que o filme me deixou sobre os turcos, no entanto e obviamente, não poderiam ter perdurado muito. Não vou aqui fazer elogios rasgados ao povo turco e sua história que conta por exemplo com um controverso massacre de armênios no ocaso do Império Otomano, além do problema enfrentado pelos curdos ainda hoje, mas daí a descrevê-los como um povo bestial e repulsivo vai uma distância absurda.

A Turquia é herdeira primeira e principal do Império Otomano, tendo antes sido herdeira do último esforço de manutenção do Império Romano. Com um legado como esse não se pode considerar que não hajam contribuições importantes para a cultura em suas diversas manifestações como música, literatura, filosofia, arquitetura, culinária, ciência entre outras. Pensar o contrário é querer ser mais que míope.

Desde que se tornou um Estado Nação em 1923, na luta pós fim da primeira guerra mundial contra a repartição do território pelos “aliados” vencedores da 1° Guerra Mundial e ao mesmo tempo contra a manutenção dos califados do Império Otomano, a Turquia se constituiu numa República onde vigora o laicismo e onde as mulheres passaram a ter direito de voto muito antes do que inúmeros países da Europa.

Quando morei em Londres conheci bastante turcos e não me recordo de ter tido problema com nenhum deles, pelo contrário, mantinha boas conversas com a maior parte deles e fiz um grande amigo o que me levou até mesmo a visitar a Turquia para conhecer o país. Passei cinco dias em Istambul e minhas impressões lá também foram muito boas, mas isso é história para um outro momento.

O cinema, a música, a literatura entre outras artes e manifestações humanas, nos permitem uma aproximação que muitas vezes não é possível de outra forma. Nesse sentido é que acho importante buscar estar antenado com cenas e formações culturais que estão presentes no mundo agora mesmo (especialmente as hostilizadas) e que ultrapassam simplesmente a esfera de influência dos EUA e da cultura ocidental de um modo mais geral.

Esse interesse é importante por diversas razões que me parecem desnecessárias citar, mas para ficar em apenas duas entre as mais importantes: nos permitem refletir nossa própria cultura sobre um outro ponto de vista e abre caminhos para a transformação pelo diálogo ao invés da imposição.

Obviamente que estamos contaminados com a vida em nosso ambiente cultural e nem sempre podemos nos envolver com temas “estrangeiros” de maneira intensa e aberta, essa não é a questão, mas não devemos liquidar os esforços no tocante a isso.

***

Nesta direção me parece também que o contato com as reflexões e manifestações internas das contradições de um povo – de si para si mesmo – são material mais interessante para construirmos com independência nossas próprias considerações que representações, em geral superficiais, que outros povos fazem deste povo.

Partindo dessa premissa não adianta ficar assistindo filme americano que narre os “arcaicos” hábitos dos povos do Oriente Médio ou da Ásia ou dos aborígenes ou mesmo as lendas de anaconda da “Selva” Amazônica. 

A autocrítica é fundamental para qualquer desenvolvimento e nesse sentido sempre permanecerá como uma característica da vitalidade cultural, ademais a autocrítica é realizada com o conhecimento da idiossincrasia e não por meio da elevação obrigatória de um lugar assumido a priori como o lugar onde se deveria estar.

Entrei nesse tema porque só recentemente vi um antigo filme turco de muita qualidade no que a arte diz aos sentimentos humanos e que não se pode considerar seja uma celebração ufanista do povo turco: também foi censurado na Turquia (embora o fato aqui envolva muito e talvez mais o realizador Yilmaz Guney). Trata-se de  “Yol” (que quer dizer estrada). 

Não deixa de ser mostra da qualidade do filme, embora isso de longe seja o que menos represente o valor desta obra, que ele tenha ganho a Palma de Ouro em Cannes em 1982.

No que diz respeito a representação do caráter do povo turco, é muito mais complexo do que o maniqueísmo vulgar esboçado de maneira não completamente compreensível em “O expresso da meia noite”. Não vou dizer mais sobre “Yol”, fica aí a recomendação para quem obviamente está interessado em todos estes temas.

1 Vale a pena ler este artigo sobre as mentiras de o “Expresso da meia noite” para quem já assistiu o filme.

Timor Leste, um ânimo invencível

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Hoje, oficialmente, o Timor Leste completa 10 anos enquanto nação soberana e embora de maneira geral o nacionalismo não contribua para a emancipação dos seres humanos no planeta, o processo de independência de alguns países, e esse é o caso do Timor Leste, não pode de nenhuma maneira ser compreendido pela perspectiva do chauvinismo.

Um povo com costumes, hábitos, língua, idiossincrasia e que é uma categoria muito distinta de pátria, no entanto, não encontra muitas vezes outra alternativa senão lutar por sua afirmação na forma do Estado, fato que se torna claro quando este mesmo povo tem seu território invadido, é perseguido e passa a ser constantemente massacrado.

Destaquei o oficialmente porque o povo do Timor Leste travou uma luta de mais de 25 anos por sua “segunda” independência (a primeira estava sendo em relação aos portugueses) e a data final não pode esconder que um luta tão obstinada e solitária – já que a maior parte da comunidade internacional se manteve em vergonhoso silêncio durante a maior parte desses anos permitindo que a máquina de guerra da Indonésia, com o total apoio e leniência dos defensores número um da democracia no mundo, ceifassem o que foi estimado em pelo menos 100 mil vidas apenas quando da invasão e numa população de 600 mil habitantes – não dá conta de entender que um processo como este demonstra inequivocamente que este povo sempre foi livre no seu âmago e na sua própria condição de identidade.

Me parece que todo elogio que possa ser feito à coragem e independência do Povo do Timor Leste será sempre pequeno e insuficiente, incapaz de alcançar a grandeza do inquebrantável ânimo “insular” que ali esteve acesso e se negou a apagar mesmo sobre o peso cruel de tantas mortes.

O alicerce das relações

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Creio que seja de algum personagem de Shakespeare a frase que diz: “Quando a lealdade mata a verdade que infernal guerra santa!”.

É uma sentença elegante, mas não precisa e, de longe, parte de premissas nefastas. O que está sugerido nesta frase é que a lealdade pode se opor à verdade, porque se alguém é amigo de alguém e quer ajudá-lo pode mentir em nome desta amizade, ainda que isso crie um conflito pessoal neste indivíduo se ele é um tributário da verdade. Não preciso dizer que verdade é aqui entendido essencialmente como contraste do que se sabe (acredita) é mentira.

Que sociedades sejam baseadas na confiança, me parece um truísmo. Onde não há confiança não pode prosperar por muito tempo nenhuma união.

Freud disse que não fazia sentido a pregação cristã contida no “ama ao próximo como a si mesmo”, o amor não poderia ser “inflacionado” dessa maneira e estendido a qualquer um. Eu concordo, acho apenas que a frase sugere outra leitura mais interessante do que essa de estender o amor a si próprio para outros (todos). Leio-a como ‘ama ao próximo como tu te amas’. Assim, Cristo, ou melhor, a frase está dizendo que é preciso ser justo com o próximo, oferecendo ao próximo, quando for o caso, o melhor de seu amor próprio.

Mas o fato é que muita gente não “ama” bem a si mesma , muito provavelmente sejam aqueles a quem Marcuse se referiu brilhantemente quando disse que “nem mesmo o supremo advento da liberdade poderá redimir aqueles que morrem na dor”, desta maneira o envenenado amor a si mesmo acaba contaminando “os outros”.

Mas se acredito que o “amor” intenso e dedicado não pode ser estendido para todos, por outro lado, acredito que a lealdade pode ser uma atitude corrente. Uma atitude que por si só difundida coloca as relações humanas numa situação mais confortável. A primeira lealdade, óbvio, é consigo mesmo e o que seria uma lealdade como essa senão a manutenção do senso de verdade? A atitude deliberada e madura de evitar a mentira para si mesmo? E se entendo que não posso estender meu amor para todos, porque, no entanto, não poderia estender esse senso de lealdade, evitando também a mentira para com o outro?

Algumas relações são mais intensas, há mais compromissos (tácitos ou estabelecidos) entre uns que entre outros, mas a lealdade não é uma questão de quinhão, quanto de lealdade para cada, não, a lealdade é uma atitude em relação aos envolvimentos estabelecidos sejam eles de que estatura for. O conflito entre lealdade e verdade, a rigor, não tem espaço se ajo com sinceridade para com todos, a começar para comigo mesmo.

A sociedade se alicerça na confiança porque não é fundada por pessoas sem vínculos. Assim, uma sociedade que tem o “sucesso” dos “sujeitos”  (no fundo objetos) na luta concorrencial como leitmotiv, acaba por considerar a lealdade (dos vínculos) como artigo acessório e dispensável e não pode seriamente almejar sua permanência por muito tempo. Talvez também por isso, o mesmo Freud tenha apontado que não adianta ficar pregando ética se ela não é recompensada aqui na “terra”, ética é a primazia (lealdade) dos vínculos, dos princípios, acima do interesse prioritariamente particular.

Confiança não pode ser lida como algo que se refere a um conteúdo moral desnecessário e no atual estágio de complexidade da sociedade humana, já deixou de ser uma assunto do bem viver, para se chegar até a sobrevivência coletiva. Mentir nos faz mal não por conta de algum sentimento de culpa, mentir faz mal porque vamos minando nossos laços e nossas relações.

Desnecessário dizer que a fraude não é uma mancha no modelo em que vivemos, é um dos desdobramentos do fato de que não recompensamos a ética. Num faz de conta míope e entendendo que de fato não podemos prosseguir unidos sem lealdade, achamos que a ética é um ponto de partida compulsório, quando na verdade é um escrutínio constante.

A palavra

Foi se o tempo em que a palavra de um homem era tida em conta, hoje são necessários papeis assinados. Matéria da alma, a palavra manifesta mostra ainda quão pouco interessados nós estamos em assuntos espirituais, já não temos nenhum compromisso com o que falamos.

 O casamento

O exemplo do casamento monogâmico, consagrado por nossa sociedade, dá uma boa mostra das digressões acima. Um casal cria um pacto de fidelidade e diz que se manterá junto “para sempre”, mas um deslize de um dos dois lados e a coisa em geral entra em crise. Uma ‘traição’ pode ser perdoada, mas isso tem um limite, a recorrência do fato não vai permitir que a confiança permaneça em pé, porque tal conduta não estava permitida.

É muito porque acredito que as pulsões libidinais são mais fortes do que um “pacto” desta naturezaque considero o matrimônio um fracasso. O “pacto” do qual deveria partir as relações entre homens e mulheres não é o de exclusividade do coito, senão uma outra forma de liga, que compreenda a irracionalidade de um tal acordo e que permita as pulsões sexuais de ambos sem que isso se converta numa “quebra de acordo”, como paradigma seria menos conflituoso, mas ao que parece estamos longe desse desprendimento.

A monogamia como gesto voluntário é possível, mas não deveria ter sido incentivada a ponto de se tornar norma simbólica de relação entre os casais. Outras maneiras de estabelecer confiança nas relações sexuais amorosas são possíveis. O adultério não precisaria existir enquanto adultério.

O câncer do coração

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Há um câncer se desenvolvendo nos corações humanos, este câncer é o cinismo. 

O cinismo é torpe, o cinismo é podre, o cinismo é covarde. É hipócrita ainda que sua hipocrisia não vá no mais das vezes além da fachada. É falso moralista e reclama ser realista. Teme ter que se defender e quando ataca – já abdica de o fazer – é de modo rasteiro, sorrateiro. É um conformado acanhando que nada pode arriscar perder ou bajulador amargo dos que mantêm palácios. O cinismo é ressentido dos corações ousados e envenena os desavisados.

O cinismo é fraco, é doença dos dos que não querem ser amantes de verdade: intensidade e entrega. O cinismo não conhece sonho, não conhece generosidade, o cinismo distribui migalhas quando se sente acossado pelo mal que ele permite seja cultivado. O cinismo é o sorriso falso, a aparência de grande inteligência e sabedoria no sarcasmo. O cinismo não abraça, o cinismo se afasta.

O cinismo só vê interesse, o cinismo não sabe o que é lúdico e afável. O cinismo é sem graça, o cinismo recrimina os que tomam lado porque ele mesmo cinismo só se permite ir, mesmo que sem convicção, onde vai a manada. O cinismo, embora não esteja sozinho, adora dizer que nada muda nada, que nada vale nada, que sempre foi assim, mas seu objetivo é minar a paixão, empalidecer o sangue, transformar tudo em aceitável (em nossos tempos) se bem pago.

O cinismo está ainda mais próximo do putrefato que uma hiena quando se alimenta. O cinismo é patético, é vulgar, diz acreditar em qualquer coisa ‘elevada’ para tentar esconder que não tem a faculdade de amar. 

Nunca é demais dizer que o cinismo não entende nada de honra e só não tem vergonha porque é apático demais para se ruborizar com o que quer que seja. O cinismo difama os corações generosos com o argumento mal-ajambrado de que tudo é egoísmo. O cinismo é uma máscara que acha que tem realidade, o cinismo é mais que um blefe, é a crença que a mentira de qualquer modo é o que prevalece. O cinismo está dominado pela desconfiança porque ele mesmo não pode confiar em nada, nem mesmo no que vê, porque lógico “as aparências ‘também’ enganam”.

O cinismo está a corroer os corações humanos, porque o cinismo se dissemina cotidianamente como se fosse fatalidade ou força natural, mas é o professar do deixa como está e salve-se quem puder.

A história mundial e o fim do capitalismo

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Recentemente o periódico alemão Spigel Online publicou este artigo dando conta de uma proposta franco-alemã de suspender temporariamente o Acordo do Espaço Schengen por 30 dias. A ideia de ruptura com este acordo vem sendo pontuada desde que a crise econômica chegou com carga total a Europa. 

O acordo de Schengen não guarda relação estrita com a União Europeia ou com a Zona do Euro. Deixando de lado uma série de detalhes, é o pacto que permite que cidadãos de 26 países da Europa – entre eles França e Alemanha – possam viajar livremente dentro do “espaço” sem a necessidade de enfrentar controles de fronteira. Além disso, os cidadãos tem direitos comuns assegurados em todos esses países, o que lhes permite que possam optar por viver onde bem entendem sem maiores dificuldades.

Vale destacar ainda que o acordo de Schengen permite ao viajante procedente de outra área (um asiático, por exemplo), seja turista ou aquele com algum outro tipo de visto, que possa circular (com praticamente a mesma liberdade) pelos outros países se aceito no país onde primeiro enfrentou os controles de fronteira. Por outro lado, está previsto no acordo que esses controles de fronteira podem ser eventualmente retomados se assim se fizer necessário por questões de segurança, por exemplo.

Desde a crise econômica que estourou em 2008, tal medida passou a ser considerada no rol dos remédios capazes de dirimir as dores do doente. Este tipo de iniciativa, lógico, é devidamente reclamado pelos sentimentos nacionalistas que se acendem em tempos de vacas magras, é a velha lógica do “farinha pouco meu pirão primeiro”. Sem a presença de imigrantes as coisas se tornariam mais fáceis, cada qual que regresse ao seu país que a coisa anda russa não só na Rússia.

Muito tem se discutido, desde a profunda insolvência em que se meteu a Grécia, sobre a manutenção da Zona do Euro, já que é bastante possível que os gregos retomem a sua antiga moeda, o dracma. Evidentemente o Espaço Schegen, como pontua o artigo da Spiegel, ainda não parece ameaçado, mas se de fato ele chegar a ser comprometido de alguma maneira será uma grande derrota não apenas para a Europa, mas para o ser humano.

O que o tratado Schengen prenuncia é um mundo de livre movimento, um mundo onde os indivíduos possam circular dentro do globo sem problemas, um mundo de fato internacional, um mundo que só uma vez construído pode oferecer a humanidade uma saída para os limiares da crise que este mesmo mundo está a se meter, porque fará ainda mais entender que estamos todos no mesmo barco.

Quando se trata do capital aliás as barreiras já foram quebradas, por isso não é demais se perguntar por que se o capital pode se mover com a desenvoltura com que consegue aproveitar as melhores oportunidades de negócio indo de Cingapura as Ilhas Bahamas, da Índia a Suécia, tudo para realizar sua busca incessante pelo lucro, os seres humanos não teriam o mesmo direito?

Se todas as dificuldades legais para aqueles que querem migrar fossem hoje quebradas, é quase certo que teríamos um desequilíbrio gigantesco criado da noite para o dia, mas talvez pudêssemos após o “tsunami” alcançar um novo equilíbrio. É sem dúvida uma proposta radical, mas o mundo cada vez mais vai precisar avançar para um gerenciamento de fato “internacional”, global, e cedo ou tarde é preciso decidir se serão as próprias pessoas a escolherem seus destinos e os destinos do planeta, ou uma meia dúzia de conglomerados ficarão com estas responsabilidades.

A expansão do capitalismo a modelo hegemônico em todo o planeta cumpre assim um papel importante para emancipação dos seres humanos, já que a própria “força estranha e maciça¹” que oprime os homens , “o mercado mundial”, só pode se realizar no plano da “história mundial” e como diz Marx em “A ideologia alemã”:

(…) então, a libertação de cada indivíduo em particular se realizará exatamente na medida em que a história se transformar em história mundial. (…) É só dessa maneira que cada indivíduo em particular será libertado das diversas limitações nacionais e locais que encontra, sendo colocado em relações práticas com a produção do mundo inteiro (inclusive a produção intelectual) e posto em condições de adquirir a capacidade de desfrutar a produção do mundo inteiro em todos os seus domínios. A dependência universal, essa forma natural de cooperação dos indivíduos em escala histórico mundial, será transformada por essa revolução comunista em controle e domínio consciente dessas forças que, engendradas pela ação recíproca dos homens entre si, lhes foram até agora impostas como se fossem forças fundamentalmente estranhas, e os dominaram”.

Para que fique mais claro, ainda com a palavra o mesmo Marx: “(…) esse desenvolvimento das forças produtivas (que já implica que a existência empírica real dos homens se desenrole no plano da história mundial e não no plano da vida local) é uma condição prática prévia absolutamente indispensável, pois, sem ele, a penúria se generalizaria, e, com a necessidade, também a luta pelo necessário recomeçaria, e se cairia fatalmente na mesma imundície anterior. Ele é também uma condição prática sine qua non, porque unicamente através desse desenvolvimento universal das forças produtivas é possível estabelecer um intercâmbio universal entre os homens, e assim ele gera o fenômeno da massa “privada de propriedade” simultaneamente em todos os povos (concorrência universal) e torna cada um deles dependente das revoluções dos demais; e porque, finalmente, coloca homens que vivem empiricamente a “história universal” em lugar de indivíduos que vivem num plano local”.

Uma outra tentativa de sinalizar a importância deste tema aqui trago por meio de um vídeo. É um trecho da peça Marx in Soho do ativista americano Howard Zinn. Marx está aqui interpretado pelo ator Fenton Wilkinson. A peça aliás é o que inglês se chama de one-man play que me parece não pode ser bem traduzido por monólogo.

O texto da peça data do ano de 1999 e tem como ponto de partida uma oportunidade que Marx ganhou de voltar a vida nos anos de hoje para se defender daqueles que o acusam de estar ‘morto’. O trecho que aqui coloco versa sobre as questões que suscitei: a importância da mundialização para que o projeto de emancipação do homem de seu trabalho abstrato e destituído de significado sensível, na medida que especializado, mecânico, enfadonho e não voluntário, possa um dia acontecer.

PS: Como se não bastasse, isso não é tudo que tenho a dizer sobre o tema. Em breve pretendo colocar a mesma questão e algumas de sua arestas em uma perspectiva, por assim dizer, menos teórica.

¹ “O poder social, isto é, a força produtiva multiplicada que nasce da cooperação dos diversos indivíduos, condicionada pela divisão do trabalho, não aparece a esses indivíduos como sendo sua força conjugada, porque essa própria cooperação não é voluntária, mas sim natural; ela lhes aparece, ao contrário, como uma força estranha, situada fora deles, que não sabem de onde ela vem nem para onde vai, que, portanto, não podem mais dominar e que inversamente, percorre agora uma série particular de fases e de estádios de desenvolvimento, tão independentes da vontade e da marcha da humanidade, que na verdade é ela que dirige essa vontade e essa marcha da humanidade”.

A crença útil

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“Me parece uma desonestidade e uma traição fundamental à integridade intelectual, ter uma crença porque se considera ela útil e não porque ela é considerada verdadeira”.

Bertrand Russel

O consenso em torno do aborto

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Assisti recentemente o filme romeno “4 meses, 3 semanas e 2 dias” que venceu a Palma de Ouro em Cannes em 2007. Não me decepcionei com o que vi e recomendo. Um ótimo filme com uma trama simples cujo o enredo é a estória de um aborto na Romênia em 1987, mas que poderia ser hoje tanto lá quanto em outros lugares onde a prática do aborto não é legalizada.

Estou partindo do filme para colocar aqui minha opinião pessoal sobre o tema: eu sou a favor da legalização do aborto. Mas ser a favor da legalização do aborto não significa defendê-lo como instrumento contraceptivo e muito menos fazer apologia a sua prática, tão somente numa série de casos, acho que a legalização, para não ficar tão somente na descriminalização – que só permite a prática de maneira mais segura para quem tem condições financeiras de fazer – é muito mais afluente com o escopo dos direitos civis que tanto se prega e pode trazer resultados muito melhores no que toca ao tema da saúde pública.

O julgamento moral da sociedade, essa consciência lida como representante geral sobre se a prática disso ou daquilo deve ser vedada ou punida, não encontra aqui nenhuma consistência além de 100m rasos de preconceitos ante o conhecimento vigente sobre o fato e os outros valores difundidos que se chocam com uma moral punitiva.

Ser a favor da legalização do aborto, na minha perspectiva, significa, por outro lado, partir sim de um consenso, o consenso do casal (óbvio não incluo aqui o já legalizado em nosso país, aborto em caso de estupro, nem a situação em que o “pai” passa a se fazer ausente por motivo como morte, por exemplo).

O que quero dizer com isso é que se não vejo direito na “sociedade” em regular uma conduta que creio está primeiramente ligada a esfera íntima, também não vejo razão que possa justificar porque as “mães” teriam a palavra final sobre o aborto – aqui entendido como o caso “específico”.

Acredito que o aborto para acontecer precisa primeiro do consentimento do casal responsável pela gestação. Já defendi essa ideia conversando com um grupo de ativistas feministas e nenhuma conseguiu apontar algo além do senso comum para justificar porque a “mãe” deveria ter toda a prerrogativa da decisão.

Resumindo muito, o fato sempre levantado é de que a mãe é responsável pela gestação e não o pai. Ora, isso é condição da natureza, não foi algo que foi decidido através de leis ou referendos. Elencar que a “mulher” é quem mais tem responsabilidades com a gestação para defender que ela teria assim o direito de um “voto” majoritário na decisão sobre um possível aborto não é razoável, o pai também tem responsabilidade na reprodução, e se ele quer tomar parte disso de maneira efetiva não acho que isso possa ser ceifado por conta da vontade unilateral da mãe.

Quando estiver mais acessível os métodos de reprodução assexuada, como inseminação artificial, poderão dar a mulher toda a palavra final no caso de um aborto, tem em vista que bons samaritanos ou não depositaram sêmen em freezers sem se importarem se aquilo geraria vida ou não, ou seja, se abstiveram de ter que decidir pelo que quer que seja na reprodução eventual de uma nova vida.

O que estou advogando pode parecer muito peculiar no arranjo dos fatos mais comuns que cerca o tema, já que, em geral, a iniciativa da maior parte dos abortos partem da vontade do pai, que não quer assumir responsabilidades por um filho. Mais de qualquer modo é uma situação que pode ocorrer com uma certa frequência: onde uma mãe não queira gerar a vida e o pai sim o queira, a situação não pode ser descartada como se não existisse e como se não fosse importante considerar o caso.

Quando não há consenso do casal sou contra o aborto e a favor da parte que quer gerar a vida, seja o pai ou mãe. Muitos pais tem que cuidar de seus filhos após a morte da mãe no parto, então, situações há inúmeras que mostram que não é só a mãe que responde pelo crescimento da vida. Que ela, a mãe, tenha que aguentar nove meses não se discute, mas quem disse que isso estava em discussão?

***

Há no filme um diálogo muito interessante entre a personagem principal e seu namorado sobre a questão do aborto. Ela questiona ao camarada o que aconteceria se fosse ela quem tivesse que abortar e não sua amiga. Acho essa cena uma condensação de uma grande discussão não apenas sobre o aborto, mas sobre as relações entre homens e mulheres no que toca as expectativas “construídas” ou “aguardadas” de um para o outro.

Vale deixar claro que no filme são dois personagens singulares num relacionamento já também singular, de modo que a mesma cena poderia ter uma outra configuração de acordo com outras estórias. O que achei forte na cena foi não o que ela encerra em seu momento, mas o que ela permite pensar, a partir do seu exemplo, além do seu próprio contexto.

Por fim, acho importante destacar, sem entrar no mérito completamente neste momento, que essa discussão se relaciona e muito com a questão da família e também com uma tendência recente – moda? – de crer que basta a “mãe” para tudo, o pai nesse caso só pode ser lido como um objeto cênico, o que – pegando carona (bem ou mal) nas novas configurações da família – faz com que o que se poderia chamar de a “figura” paterna não faça falta. Lógico que a “figura” materna, nesse novo rearranjo e lógica, em breve também não fará muita falta. Por esse caminho, ambos aliás não farão falta nenhuma com crianças sendo geradas como seres desde sempre desligados de laços com estas características e já completamente acostumados com uma sociedade de indivíduos em relações impessoais. 

O Direito à Preguiça

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Excertos de o Direito à Preguiça de Paul Lafargue

Este primeiro que está na introdução do “manifesto” é o que mais gosto, uma vez que denuncia essa correlação entre a moral burguesa e uma moral do ascetismo – de um certo modo assim como criticada e descrita por Nietzsche em Genealogia da Moral – a ser infligida contra os trabalhadores, além é claro da própria mudança de caráter da burguesia que passa a se fiar no conservadorismo representado pelas religiões.

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A burguesia, quando lutava contra a nobreza, apoiada pelo clero, arvorou o livre exame (tese de Lutero segundo a qual cada um interpreta a bíblia individualmente) e o ateísmo; mas, triunfante, mudou de tom e de comportamento e hoje conta apoiar na religião a sua supremacia econômica e política. Nos séculos XV e XVI, tinha alegremente retomado a tradição pagã e glorificava a carne e as suas paixões, que eram reprovadas pelo cristianismo; atualmente, cumulada de bens e de prazeres, renega os ensinamentos dos seus pensadores, os Rabelais, os Diderot, e prega a abstinência aos assalariados. A moral capitalista, lamentável paródia da moral cristã, fulmina com o anátema (excomunhão) o corpo trabalhador; toma como ideal reduzir o produtor ao mínimo mais restrito de necessidades, suprimir as suas alegrias e as suas paixões e consumi-lo ao papel de máquina entregando trabalho sem tréguas nem piedade”.

Este trabalho, que em Junho de 1848 os operários reclamavam de armas na mão, impuseram-no eles às suas famílias; entregaram, aos barões da indústria, as suas mulheres e os seus filhos. Com as suas próprias mãos, demoliram o lar, com as suas próprias mãos, secaram o leite das suas mulheres; as infelizes, grávidas e amamentando os seus bebês, tiveram de ir para as minas e para as manufaturas esticar a espinha e esgotar os nervos; com as suas próprias mãos, quebraram a vida e vigor dos seus filhos”.

Para ser aliviada no seu penoso trabalho, a burguesia retirou da classe operária uma massa de homens muito superior à que continuava dedicada à produção útil e condenou-a, por seu turno, à improdutividade e ao super consumo. Mas este rebanho de bocas inúteis, apesar da sua voracidade insaciável, não basta para consumir todas as mercadorias que os operários, embrutecidos pelo dogma do trabalho, produzem como maníacos, sem os quererem consumir e sem sequer pensarem se se encontrarão pessoas para os consumir”.

A experiência

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A experiência não nos diz o que estamos experimentando. As coisas simplesmente acontecem. Mas se não soubermos o que procurar em nossas experiências, elas frequentemente não terão para nós a menor significação” .

Samuel Ichiye Hayakawa

O ranzinza machista

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Recentemente fui “acusado” por alguns dos meus diletos amigos de “machista” e “ranzinza”. Essas são “acusações” recorrentes que se dirigem a mim. Naturalmente o objetivo deste post não é lavar a roupa suja com os meus “acusadores”, mas discorrer sobre os “crimes” na perspectiva em que eu os encaro.

Desnecessário dizer que esses rótulos tem sido empregados a torto e a direito por muita gente como forma barata de agressão.

O ranzinza

Vou começar primeiro confessando: sim, eu sou ranzinza. É uma verdade inconteste que eu não gosto de participar de oba-oba, que eu levo muita coisa a sério e que piada de negro para mim é racismo. Tenho que dizer ainda que não sou de conversar muito sobre coisas fúteis, a exceção de futebol – vai ver porque sou “machista”.

Mas esse mea culpa não pode ir tão longe, eu também me divirto independente de qualquer definição de se a vida na terra é só um passeio ou não. Esse ranzinza que me acusam é muito fruto de uma certa falta de participação em conversas não viscerais e sobre amenidades da semana. Soma-se a isso uma descrença profunda na inflação da moral do “perdão”, para usar uma terminologia cristã muito fossilizada nas mentes de quem cresceu sob esses signos.

Eu acho o “perdão” algo lindo, magnânimo, mas devo reconhecer que não sou Cristo, e não perdoo aqueles que sequer pedem perdão, o que não significa que eu me ofenda com tolices ou guarde o veneno do ressentimento, simplesmente me afasto daqueles em que passo a não confiar e não buscam de maneira clara e sincera ter de volta a minha confiança.

De todo modo também não fico esperando o “perdão”, quando sou o ofensor, nem acuso os que não perdoam determinados “crimes” de inclementes. É uma perspectiva que soa amarga, mas cada qual, se soberano de sua vida, é um ser único que aprecia sua própria conduta de maneira singular.

Naturalmente errei e continuarei errando, mas esses erros temperaram e temperarão minha consciência e meu caráter porque eu os examino – não me crucificando, mas procurando extrair deles onde posso melhorar, obviamente, segundo minhas próprias perspectivas.

Entre aquilo que descobri com alguns destes erros é que já não quero mais lidar com a covardia nas relações: vamos nos manter em silêncio e ver o quanto pesa olhar no olho. Aprendi ainda que as palavras, para não aprofundarem o que um grande pensador denominou de a maldição da matéria sobre o “espírito”, devem ser expressas no timbre certo, ou seja, serem manifestações da verdade – aqui entendida como aquilo que não mente para si nem para outro, se há respeito para com o outro.

Cada dia diminui minha tolerância com a mentira, cada dia diminui minha tolerância com o pensamento colocado de forma velada. Longe de mim querer incentivar um tom marcial e militar (deixando claro isso já que é fácil estabelecer essa conexão), mas é imprescindível buscar ser claro e firme: ser generoso sim, mas não idiota. Em suma, brincando com a famosa frase de Che (infelizmente tornada clichê, já que não refletida e simplesmente reproduzida): “é preciso não perder a ternura, mas sem deixar de endurecer”.

Este é o eu “ranzinza”: um resoluto que não seduz com truques, senão com seu próprio perfume.

O machista

Passemos ao segundo crime: o “machismo”. Para começar quero dizer que não entendo muito bem a natureza dessa “acusação”, uma série de coisas hoje são alcunhadas sobre esse guarda-chuva. Aqui, não sei se devo confessar o crime ou não, porque não está claro que crime é esse.

Mas vamos examinar alguns das minhas crenças e atitudes no que toca ao possível delito.

Antes de mais nada me oponho a qualquer forma de agressão física de homens contra mulheres, já vejo alguns podendo apontar: “isso é porque você acha que as mulheres são inferiores e não podem se defender, é machismo”.

Acredito ainda que o estupro é o crime mais hediondo que existe, ainda mais hediondo que o homicídio e só equivalente à tortura, eu diria que é o crime fundador dos crimes e quiçá o ponto de partida do ordenamento jurídico em que se desenvolve a civilização – tomo como consistente as bases da perspectiva psicanalítica tal como desenvolvidas por Freud (pensando a teoria do austríaco como ponto de partida, não de chegada).

Seria machismo mais uma vez? Já que avalio o ordenamento da vida sexual como primeiro alicerce do projeto civilizatório? Estou, de passagem, tratando as mulheres outra vez como fracas e indefesas ao condenar veementemente o estupro?

Prosseguindo, não acredito no lema iluminista de que “a alma não tem sexo” e na frase famosa de “que não se nasce mulher, faz-se mulher” ambas fruto do sistema fetichista do mundo mercadoria que surgiu no bojo do capitalismo moderno e que quer tornar todo indivíduo singular (homem e mulher são singularidades) na mesma espécie de pacote – que veste o mesmo tipo de roupa, come o mesmo tipo de comida, usa o mesmo tipo de tecnologia – ou ainda retirar o amor erótico do mundo, talvez com medo de uma epidemia de AIDS que faça com que o sistema deixe de operar, talvez com medo dos hippies.

Jamais parti do pressuposto de que o homem é superior a mulher. Como são distintos ambos tem contribuições distintas a dar na vida em comunidade e um com outro. Talvez as novas formas de concepção e o projeto do fetichismo citado, no entanto (não sou ingênuo), consiga de fato suprimir essas distinções e transformem homens e mulheres em seres iguais e mesmo assexuados.

Talvez também seja acusado de machista porque não incrimino, nem discrimino, as mulheres que já não se deixam inibir por gerações de um pensamento que de fato submetia-as à uma dieta sexual limitada. Eu também não subscrevo a centralidade da opção monogâmica nos relacionamentos. Até aqui, quem mais se beneficiou desta foram os homens, mas não vejo nenhuma vantagem no prosseguir desta hipocrisia.

Respeito as mulheres ditas “galinhas” (verdade que não faço o mesmo com as putas, já que não entendo o sexo como uma mercadoria) porque percebo nelas a liberdade sexual exibindo no mínimo coragem, embora eu acredite, por outro lado, que isso nem sempre é fruto da vontade intrínseca e muitas vezes é só reflexo reativo, por exemplo, à uma repressão vivenciada.

Não corroboro também com o dimensionamento dado aos corpos e as faces maquiadas, sejam de mulheres ou de homens, como fôrmas que forjam padrões de beleza e do sexualmente atrativo a serem cultuados e perseguidos, não só no próprio corpo mais principalmente no do outro – aqui já objeto do desejo em geral plastificado.

Trata-se, outra vez, de uma das variantes da realização do projeto fetichista da mercadoria. Lamento assim o fato de que as mulheres sejam vendidas e se deixem vender como embalagens pavlovianas nas campanhas de promoção de cerveja e demais bens da sociedade produtora de mercadoria.

Acredito ainda que a verdadeira conquista de igualdade das mulheres não é de fato a instalação da situação em que elas possam competir “igualmente” por cargos executivos em grandes multinacionais, isso é apenas engodo. Homens e mulheres estarão livres quando abdicarem de serem tutelados por uma lógica do trabalho “alienado” como lugar central do reconhecimento de ambos enquanto indivíduos participantes da comunidade, que hoje vem sendo acima de tudo uma comunidade baseada na troca dos produtos em que cada um se transforma.

Se tudo isso me torna um machista, então também confesso este crime. Mas, em ambos os casos, não me arrependo de meus delitos nem peço perdão.

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