Se fôssemos todos químicos

Sexta-Feira, 27 Março, 2009

Olha que coisa da porra, ao mesmo tempo em que você tem que manter suas convicções, você precisa ser flexível. Não me pergunto até que ponto, me pergunto até que ponto você tem convicções?

Por outro lado, quanto mais flexível melhor? Flexibilidade é sinônimo de inteligência, força? Novo lema: força é flexibilidade.

A flexibilidade deve ser calculada conforme médias ponderadas ou quem sabe nem faz mal que você jogue em dois times ao mesmo tempo sendo artilheiro e anotando gols contra, tudo isso ponderado também?

- Não – respondem – isso aí é a sabedoria: dosar. A vida ensina.


Metalinguagem

Quinta-feira, 26 Março, 2009

Eu estava me perguntando aqui se todo dia tenho que escrever algo, se a imposição desta tarefa não me obriga a dizer coisas que senão sejam fúteis, soem desnecessárias. Como não terei por hábito ficar postando conteúdos não produzidos por mim, a atualização desse blog se transforma numa bifurcação.

De um lado passo a exigir de mim mais disciplina para estar sempre colocando uma coisa nova aqui, de outro, escrevo somente quando me der  na veneta e sentir ser imprescindível.  No primeiro caso ganho mais fidelidade de meus possíveis interlocutores, mas posso estar participando da mesma tônica que me irrita, que é falar sem ter nada a dizer, produzir por produzir, mesmo que a produção seja de lixo. Já no segundo caso, posso me abater por pensar na minha insignificância enquanto ser vivo e simplesmente desistir desse projeto de ação, quando no máximo dar pálidas contribuições espasmódicas.

Com tantas coisas que já foram ditas, feitas, imagino que não só eu, mas muitos se perguntem “o que me resta fazer?” Em suma queremos alcançar algo original, mas nos sentimos incapazes de dar um passo adiante; nos aprisionamos de mais no horizonte as nossas costas e o irônico disso é que basta uma meia volta em qualquer ida para que voltemos por inteiro se continuarmos deste ponto andando.


A malhação e o fast food

Quarta-feira, 25 Março, 2009

Vou retomar aqui umas coisas antigas num blog que mantinha com meu amigo Pardal, como o blog não está mais na rede registro esses escritos novamente.

A começar com esse, sobre tema recorrente:

Até que ponto o homem – a mulher também agora que se meteu de vez na empreitada – é capaz de superar as dificuldades? Vencer os obstáculos, o cansaço, o tédio, o sufoco? Esgotar a última gota de paciência e condescendência? A última ponta de empatia e sensibilidade? Bater no peito e gritar: “Mais um hot-dog, mais um hot-dog, mais um hot-dog…” e assim sucessivamente?

Quanto de estômago vamos precisar desenvolver para processar todo tipo de lixo que produzimos na vã alquimia do elixir da felicidade de mercado? Com uma nutrição como essa eu não sei o que vamos nos tornar. Mas tudo bem, seja o que for, já desenvolvemos tolerância (leia-se, indiferença) o suficiente para lidarmos com todo tipo de mutação. É irônico perceber que toda essa odisséia de superação, menos que uma mostra de nossa potência e resistência, no fundo é nossa deterioração e humilhação mais integral.


Beleza Diamantina

Sexta-Feira, 20 Março, 2009

Já contei esse episódio para alguns amigos, mas registro-o agora aqui, não porque precise me lembrar dele. Não o esqueço e assim será.

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Ainda em baixo, na altura da subida do quebra bunda – que leva ao morro de onde se pode ver o Vale do Pati de cima, para quem faz esse trajeto para chegar à igrejinha – eu observei um urubu solitário no céu.

Este ponto vale mencionar marca o encontro quase abrupto entre os campos gerais (vasto campo de um capim que – na ocasião alto e seco – ganhava sob a incidência dos raios solares diversos matizes de amarelo, de seu caule mais opaco até a ponta que emitia um dourado vibrante) com um mata densa e verde (a vegetação aí é mais rica e se encontra um pequeno rancho – ponto de parada para aqueles que querem acampar no percurso, como foi meu caso, por conta de um poço natural de água onde se pode tomar um banho e relaxar).

Neste ponto, mais precisamente ainda dos campos gerais de onde se pode ver todo o céu, eu observava o solitário urubu voar. Havia poucas nuvens e era o trecho do fim de tarde ainda claro para ser confundido com o anoitecer. O Urubu voava como quem brincava, planando sem compromisso, quando me recordei desta cena de Hollywood:


Mesmo que pudesse não teria registrado o instante e logo em seguida me veio a mente: “Quem precisa de saco plásticos?”


Faça sua própria pergunta

Quarta-feira, 18 Março, 2009

O pensador esloveno Slavoj Zizek, que está muito em voga, disse que era precioso começar a fazer as perguntas corretamente, no sentido de perguntas que devem ser feitas realmente e como devem ser feitas, e nisso a filosofia poderia ajudar. “Fazer as perguntas corretas”, eis aí uma contribuição da filosofia.

O estudioso das mitologias, autor de “O Herói de mil faces”, Joseph Campbell, bastante estudado por Hollywood, devia ter a mesma opinião que Zizek.

Campbell dinamitou uma das perguntas mais freqüentes e abissais de que se tem notícia na história humana: “Qual o sentido da vida?”. Quer dizer, não que a pergunta não tenha sua força e sentido, mas ele diz que não é essa dúvida que angustia o ser humano. O que angustia é a ausência de estar sentindo a experiência de estar vivendo, no que viver tem de mais vivo.
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Intuitivamente sabia que essa não era a pergunta, embora continuasse pensando nela nesses termos. “Qual o sentido da vida?” se respondido fica até uma coisa insuportável. Vamos dizer que seja, por exemplo, a narrativa biológica: nascer, crescer se reproduzir e morrer. Meu Deus que tédio. Não que eu não possa levar uma vida árcade e precise dos fliperamas do mundo high-tech, mas se tivermos acesso à resposta (supondo que exista) o que mais restará fazer?

Dostoiévski faz uma profunda digressão sobre isso em “Notas do Subsolo”, mas partindo da crítica à ciência que encerraria o porquê de todos os movimentos. Ele diz, pela boca de seu personagem, que o que o homem quer não é uma vontade que seja melhor para ele necessariamente, mas uma vontade que seja própria.

Por isso, se a falta de movimento é entediante, um movimento teleguiado não é um mal menor, disso estou certo – principalmente se há alguma consciência dessa regência. Unabomber, que ficou conhecido aparentemente só por suas bombas, produziu um manifesto em que toca bastante na questão da falta de autonomia como instrumento imprescindível da coerção social e adequação na sociedade industrial, mas ao mesmo tempo fonte das angústias dos indivíduos.

O tédio que massacra é a falta de vida real e própria, mas com tantos desejos artificiais me pergunto se ainda conseguiremos distinguir o que surge em nós mesmos.


Veremos e podemos vencer

Terça-feira, 17 Março, 2009

Em artigo publicado neste domingo, 15 de março, na Folha de São Paulo e intitulado “Aprendendo com o Brasil”, o eminente pesquisador americano Immanuel Wallerstein, autor da teoria do sistema mundial que pode ser conferida no volumoso livro “O sistema mundial moderno”, declara:

O que faz a esquerda quando essas figuras “decepcionam”, como todas não podem deixar de fazer, já que são todas centristas, mesmo que à esquerda do centro (se referindo a presidentes como Lula e Obama)?

Em minha opinião, a única atitude sensata é aquela adotada pelo grande, forte e militante MST (Movimento dos Sem-Terra) no Brasil. O MST apoiou Lula em 2002, e, apesar de todas as promessas que ele deixou de cumprir, apoiou sua reeleição em 2006. O fez com plena consciência das limitações do governo de Lula, porque a alternativa seria evidentemente pior. Mas o que o MST também fez foi manter pressão constante sobre o governo de Lula -reunindo-se com ele, denunciando-o publicamente quando o governo o merecia e organizando-se em campo para combater suas falhas.

O MST seria um bom exemplo a ser seguido pela esquerda americana, se tivéssemos qualquer coisa comparável a ele em termos de movimento social forte.”

A marcha prossegue, 18 de maio de 2005Mais o que mais me agrada em seu artigo não é o enaltecimento do MST, movimento que por nossas bandas é tratado como marca de atraso, típico daqueles que não querem nenhuma alteração do status quo e não hesitam em atacar qualquer movimento mais articulado de contestação do horizonte estabelcido, gente que só abre a boca para defender a suposta eficiência capitalista em gerar desenvolvimento e riqueza, no que não estão errados, mas esquecem de dizer que esse destino idílico é reservado para poucos e que a maioria continuará vivendo num universo dantesco, daí porque creio que um Robespierre faz falta em nossos tempos. Mas como dizia, o que mais me agrada é seu claro diagnóstico:

O que está acontecendo é uma desintegração do capitalismo como sistema mundial, não porque ele não pode garantir o bem-estar da grande maioria da população (isso é algo que o sistema nunca pôde fazer), mas porque não consegue mais garantir que os capitalistas terão o acúmulo interminável de capital que é sua razão de ser. Chegamos a um momento em que nem os capitalistas prescientes, nem seus adversários (nós), estamos tentando preservar o sistema. Estamos ambos tentando estabelecer um sistema novo, mas é claro que temos ideias muito diferentes – na verdade, radicalmente opostas – quanto à natureza de tal sistema.”

“O sistema está se bifurcando, o que significa que dentro de 20 a 40 anos haverá algum sistema novo, que criará ordem a partir do caos. Mas não sabemos qual será esse sistema. O que podemos fazer? Para começar, precisamos ter clareza sobre de que trata essa batalha. É a batalha entre o espírito em favor de um sistema novo que não seja o capitalismo, mas que mesmo assim seja hierárquico, explorador e polarizador e o espírito de um sistema novo que seja relativamente democrático e relativamente igualitário. Não existe mal menor aqui. É uma coisa ou a outra.”


Indagações

Segunda-feira, 16 Março, 2009

Uma antiga poesia, agora reelaborada, sobre os que não examinam o que negam.

Indagações

Por que negas
com ótica cristalizada?

Que ciência reza
se sequer faz
seu possível experimento?

Como permite que o pensamento deles seja o teu,
sem ao menos compreender por quê?

Te pergunto com dor:
por que não perdes o temor,
o rancor, o medo, não rompe teu mito
e se entregas ao amor?


Máquina de lavar, pílulas e camisinhas

Sexta-Feira, 13 Março, 2009

Já havia falado sobre a ambivalência do uso da camisinha. Não sou advogado da igreja católica e, portanto, não acredito que todo esperma é sagrado (Monty Phyton), se faço críticas à camisinha não significa que marcho pelo mesmo caminho que essa instituição.

Num artigo curto, intitulado “Depois do Sexo…”, o biólogo brasileiro Fernando Reinach discorre sobre como os machos no reino animal se utilizam de estratégias para que a prole da fêmea seja sua (legando seu patrimônio genético) e como a fêmea, por seu lado, se protege de ter uma prole de um único macho para diminuir os riscos de comprometer sua prole com um único material genético.

Ora alguém poderá dizer que isso não faz sentido no que concerne aos homens e mulheres e até alegar que hoje há testes de DNA e coisas do tipo. Só confundem as coisas quanto aos testes de DNA, porque a questão não é retirar dúvidas de Bentinho, mas sim que o macho garanta desde sempre que o filho só poderá ser seu.

Quanto a se isso se aplica aos homens e às mulheres, essas estratégias, não tenho dúvidas. Mas o grande lance é que entre as mais famosas moscas, as drosophilas, se constatou numa pesquisa que os machos exercem essa influência através de seu “sêmen” que contém uma proteína (que funciona como um hormônio) que altera o comportamento da fêmea, que já estão equipadas inclusive com o receptor desse hormônio.

Reinach declara: “(essa descoberta) demonstra pela primeira vez a existência de um mecanismo hormonal completo através do qual o macho é capaz de controlar o comportamento da fêmea”.

Agora entro em campo místico. Embora não haja resultado, que eu conheça, de pesquisas semelhantes no que toca aos homens e às mulheres, também não tenho dúvidas de que isso se aplica aos homens e às mulheres.

Por isso, se a máquina de lavar não é o grande ícone de liberalização das mulheres, também não creio que as pílulas anticoncepcionais o sejam, aliás, anticoncepcional é geralmente utilizado por mulheres que fazem sexo sem camisinha, essa sim a grande revolucionária da história de liberalização das mulheres que é medida pela capacidade da mesma de ocupar lugares antes masculinos, mas discorro sobre isso uma outra hora.


Léxico II

Quinta-feira, 12 Março, 2009

Lacônico

Quando o camarada não tem nada a dizer, mas ainda assim precisa dizer alguma coisa. A esse o chamam de lacônico, quando o deveriam deixar em paz.


Guerra Latente

Quarta-feira, 11 Março, 2009

“… mais relevante é a insistência dos oprimidos em abrir e reabrir as lutas para fugir do destino que lhes é prescrito; e, de outro lado, a unanimidade da classe dominante que compõe e controla um parlamento servil, cuja função é manter a institucionalidade em que se baseia o latifúndio. Tudo isso grantido pela pronta ação repressora de um corpo nacional das forças armadas que se prestava, ontem, ao papel de perseguidor de escravos, como capitães do mato, e se presta, hoje, à função de pau mandado de uma minoria infecunda contra todos os brasilieros.”

Darcy Ribeiro, O Povo Brasileiro

"A tarefa da nova geração de brasileiros é tomar esse país em suas mãos para fazer dele o que há de ser, uma das nações mais progressistas, justas e prósperas da terra"