Em artigo publicado neste domingo, 15 de março, na Folha de São Paulo e intitulado “Aprendendo com o Brasil”, o eminente pesquisador americano Immanuel Wallerstein, autor da teoria do sistema mundial que pode ser conferida no volumoso livro “O sistema mundial moderno”, declara:
“O que faz a esquerda quando essas figuras “decepcionam”, como todas não podem deixar de fazer, já que são todas centristas, mesmo que à esquerda do centro (se referindo a presidentes como Lula e Obama)?
Em minha opinião, a única atitude sensata é aquela adotada pelo grande, forte e militante MST (Movimento dos Sem-Terra) no Brasil. O MST apoiou Lula em 2002, e, apesar de todas as promessas que ele deixou de cumprir, apoiou sua reeleição em 2006. O fez com plena consciência das limitações do governo de Lula, porque a alternativa seria evidentemente pior. Mas o que o MST também fez foi manter pressão constante sobre o governo de Lula -reunindo-se com ele, denunciando-o publicamente quando o governo o merecia e organizando-se em campo para combater suas falhas.
O MST seria um bom exemplo a ser seguido pela esquerda americana, se tivéssemos qualquer coisa comparável a ele em termos de movimento social forte.”
Mais o que mais me agrada em seu artigo não é o enaltecimento do MST, movimento que por nossas bandas é tratado como marca de atraso, típico daqueles que não querem nenhuma alteração do status quo e não hesitam em atacar qualquer movimento mais articulado de contestação do horizonte estabelcido, gente que só abre a boca para defender a suposta eficiência capitalista em gerar desenvolvimento e riqueza, no que não estão errados, mas esquecem de dizer que esse destino idílico é reservado para poucos e que a maioria continuará vivendo num universo dantesco, daí porque creio que um Robespierre faz falta em nossos tempos. Mas como dizia, o que mais me agrada é seu claro diagnóstico:
“O que está acontecendo é uma desintegração do capitalismo como sistema mundial, não porque ele não pode garantir o bem-estar da grande maioria da população (isso é algo que o sistema nunca pôde fazer), mas porque não consegue mais garantir que os capitalistas terão o acúmulo interminável de capital que é sua razão de ser. Chegamos a um momento em que nem os capitalistas prescientes, nem seus adversários (nós), estamos tentando preservar o sistema. Estamos ambos tentando estabelecer um sistema novo, mas é claro que temos ideias muito diferentes – na verdade, radicalmente opostas – quanto à natureza de tal sistema.”
“O sistema está se bifurcando, o que significa que dentro de 20 a 40 anos haverá algum sistema novo, que criará ordem a partir do caos. Mas não sabemos qual será esse sistema. O que podemos fazer? Para começar, precisamos ter clareza sobre de que trata essa batalha. É a batalha entre o espírito em favor de um sistema novo que não seja o capitalismo, mas que mesmo assim seja hierárquico, explorador e polarizador e o espírito de um sistema novo que seja relativamente democrático e relativamente igualitário. Não existe mal menor aqui. É uma coisa ou a outra.”