Um alô

Quarta-feira, 17 Junho, 2009

Bom, meus camaradas, tinha que dar um alô, uma satisfação aqui neste espaço, já que tem uns bons dias que não público. O que se passa é que há até alguns temas que acho importante estar dando uma palavra sobre eles, mas tenho andado meio que desleixado e tem me faltado paciência.

Tem algumas coisas em mente pra escrever, mas não sei pra quando, o que de fato não importa muito.


‘O Leopardo’ e a mudança

Quinta-feira, 4 Junho, 2009

Comentaristas políticos, escritores, filósofos entre outros pensadores de nosso tempo, adoram citar uma frase de Tomasi di Lampedusa, escritor de um único e grandioso livro, “O Leopardo”. A já famosa é: “Para que tudo permaneça como está, é preciso que tudo mude”.

Gostaria de convidar também a minha meia dúzia de leitores a refletir sobre o sentido desta reunião de palavras. Afinal que mudança é essa que deixa que tudo permaneça? Ok, a frase não deve ser entendida tão ao pé da letra, mas vale ainda continuar a reflexão e chego então ao seguinte: é preciso que aqueles que querem a mudança definam melhor os seus termos, a ausência dessa clareza faz com que conservadores (aqui entendido lato sensu) se refiram a própria manutenção das coisas como mudança, que até tem uma expressão mais honesta: reforma.

Mas não vou me estender, a reflexão é de vocês. Eu de minha parte, acho apenas que precisamos de uma mudança até no modo de mudar, para não haver confusão.

Ainda sobre a mudança tem uma frase interessante cujo autor desconheço: “Mude, mas mude devagar porque mais importante que a velocidade da mudança é a direção”, digo interessante porque não dá pra concordar com essa frase sempre, mas é um bom lema quando se sente que se tem tempo.

Mas voltando ao ensejo desse post, gostaria de falar um pouco mais sobre o livro ”O Leopardo”. É um livro sobre o declínio – este que ‘reza a lenda’ cedo ou tarde chega – e como ele deve ser sempre postergado.

Por isso, Dom Fabrizio, o príncipe que o leitor de “O Leopardo” acompanhará em seu declínio não poderia ter dito, de outro modo, as palavras esclarecedoras e mesquinhas: “vivemos numa realidade móvel à qual procuramos adaptar-nos como as algas que se dobram sob o ímpeto das ondas do mar. Poderemos porventura preocupar-nos com os nossos filhos, talvez com os nossos netos, mas para além daquilo que esperamos poder acariciar com estas mãos não temos obrigações”. (Moral da história: nada importa mais do que a manutenção do estado das coisas, assim concluo que os revolucionários não podem ser acusados de preguiçosos.)

Explicitando o que implicitamente já pode ser sentido e compreendido tanto do declínio quanto do comportamento de manutenção, “O Leopardo” consegue a contundência quase cruel de nos colocarmos frente a frente com nossa (?) vilania e por que não dizer, no “tempo burguês”, nossa (?) venalidade. Uma venalidade que foi tão longe que, penso, deveria causar enjôos febris quando pensada em sua existência, mas que de fato escamoteada em mil e uma distrações e recalques, não produz mais que uma enxaqueca logo combatida com aspirinas.

Ainda vale apenas citar uma passagem que relaciona tudo isso com a linguagem, esse tema inesquecível!

“Aliás, essas preocupações verbais correspondiam bem aos seus próprios sentimentos em relação à paixão calculada de Tancredi, embora o irritassem quando o cansava; eram, de resto, apenas um exemplar das mil e uma astúcias de linguagem e atitudes que, há já algum tempo, era obrigado a imaginar; pensava com inveja na situação de um ano atrás, quando dizia tudo quanto lhe passava pela cabeça, certo de que todas as tolices seriam aceitas como palavras dos evangelhos e todas as leviandades como negligências de príncipe”.

? Gozado esse artifício de linguagem que empregamos para nos colocarmos todos no mesmo saco e daí retirar um padrão de conduta normal e aceitável que nos exime do que quer que seja. ‘Estou tranqüilo porque meu comportamento se não se justifica necessariamente pelo dos outros, no entanto só pode ser avaliado sobre a perspectiva do comportamento comum.’