Não é necessário ler jornais, se graduar em ciências humanas ou exatas, para sentir que a crise do modelo de reprodução do atual momento da civilização, leia-se capitalismo, poderá nos conduzir não inexoravelmente para uma mudança de atitude face a nossa recorrente e entorpecida rotina robotizada – que já tanto nos rouba a imaginação em prol da manutenção das engrenagens que não podem descansar – mas eventualmente para a desintegração completa dos bastiões éticos que sustentam o projeto civilizatório.
Essa segunda perspectiva afinal pode ser ainda mais forte do que se quer considerar. Como já observou um pensador muito em voga nestes dias, “está mais fácil conceber o fim do mundo do que o fim do capitalismo”. Isso não pode mais ser lido na dimensão de uma figura de linguagem hiperbólica, senão como o que realmente diz: se continuarmos nos limitando nesta forma de nos relacionarmos enquanto seres mercadorias, o esfacelamento do sistema poderá significar também o fim do ser humano, ainda que paulatinamente e no desenho da obsolescência programada de aparelhos industrializados substituídos a cada meio movimento de translação da terra.
Quando disse poderá nos conduzir eu não fui completamente sincero, a verdade é que nós temos a responsabilidade pelo caminho que estamos traçando e, portanto, a crise do sistema nos conduzirá para onde a conduzirmos, isso se assumirmos nossa condição de seres humanos dotados de vontade e ânimo e não apenas títeres controlados pela “mão invisível” ou pelo lugar sacramentado da sobrevivência como último reduto da farsesca “lei do mais forte”, como se a vida – mesmo na condição indigente em que já grandes massas estão enfiadas – tivesse um valor absoluto e sempre acima de tudo, inclusive da capacidade de optar por ser digno e não se render mesmo ao “preço” elevado da morte.
Acredito que aqueles que buscam o verdadeiro significado da liberdade sabem que não se pode passar uma vida ao redor de escravos sem feridas de desgosto na alma e que seria um verdadeiro pesadelo acordar como um escravocrata.
Mas como dizia, a crise já pode ser sentida e seu verdadeiro termômetro e bússola é o coração humano. Não que acredite nas fábulas do cordeiro e do lobo, quando se entende a ambivalência e diversidade da forma humana essas imagens são estanques, mas as batidas apertadas que bombeiam o sangue dão conta de sinalizar o clima de alerta em terra já arrasada da pobreza espiritual semeada pela máquina da eficiência.
A mesquinharia, a inveja e a indiferença à dor alheia se sentem cada vez mais a vontade para se justificarem e se expandirem. Não que houvesse uma apologia incessante desses valores, pelo contrário, o discurso sempre foi pela ética e pela declaração dos direitos humanos. Mas como se sabe a propaganda é como uma máscara, em termos de ideias a verdadeira cara deste sistema atende pelo darwinismo social e não poderia se coadunar senão de maneira hipócrita com o que algum dia as hoje desgastadas palavras de liberdade, igualdade e fraternidade eram “aptas” a suscitar.
A crise do capitalismo não é estruturalmente um conflito ético, mas a angústia crescente dos seres humanos que buscam a virtude não pode mais fingir que ignora a falta de sincronização entre os chamados generosos da alma e a má educação dos valores da concorrência definitiva com a crença difusamente difundida de que somos todos egoístas. Nos seus estertores os fundamentos da lógica capitalista terão espasmos violentos por conta da impossibilidade da contínua e intransigente valorização do dinheiro que já solapa até mesmo o ar que se respira, e há também – por isso o temor do fim do mundo – a grande ameaça de que os valores convertidos em máscaras a que nos referimos revelem seu estado de “extinção” frente à “dominância” e concretude dos seres concorrentes e frios que nos “selecionamos” na crença de que “evoluimos”.
