Uma guerra nova para a década nova

Outra vez e com a cara mal lavada, os Estados Unidos da América se preparam para promover mais uma guerra num cenário já em fragmentos pós crise de 2008.

A bola da vez é o Irã, atualmente segundo maior produtor de petróleo da OPEP, o primeiro é a Arábia Saudita, monarquia autoritária jamais questionada na imprensa internacional porque é parceira de primeira hora dos EUA.

As sanções contra o Irã estão escalando. A mais nova é o embargo ocidental já arquitetado ao petróleo iraniano, medida que pode não fazer muita diferença tendo em vista que a maior parte da exportação iraniana segue para os países asiáticos, principalmente a China que não deve subscrever tal atitude até por questões lógicas e jamais aceitaria ser pressionada como o falido estado grego que irá adotar a atitude goela abaixo mesmo sendo o maior importador europeu do petróleo iraniano que adquiri(a) como um bom negócio. O embargo ao petróleo iraniano se não provar nada, prova como a Grécia perdeu sua soberania e deixa de fazer até um bom negócio por pressões de uma União Europeia que corre sério risco de se esfacelar.

Além do embargo à commodity que pode fazer elevar os preços dos combustíveis altamente poluentes que fazem girar a economia mundial, o embargo ataca também aplicações das instituições financeiras iranianas nos bancos ocidentais. É de se esperar que o Irã em algum momento reaja a isso, um Estado soberano não pode ser tão fortemente hostilizado e aceitar tudo como se nada estivesse acontecendo. O Irã diz que se o rumo for esse, eles irão impedir a passagem de navios petroleiros pelo Estreito de Ormuz, por onde hoje navega quase metade do petróleo a ser consumido no mundo.

A OTAN disse que isso seria inaceitável e evidentemente o conflito acabaria ocorrendo. De um conflito nos mares para a guerra total seria questão de uma edição de jornal. Por enquanto, a diplomacia avisa e cava suas intenções por meio de alertas midiáticos, como a reação é quase indiferente, a estrada vai se abrindo.

O mais absurdo no que está transcorrendo é que tudo isso começa na alegação dos EUA de que o Irã quer construir uma bomba atômica, coisa que o Irã nega e que, até aqui, nenhuma prova cabal demonstra (nem sequer uma manipulada como foi o caso das potentes e mágicas armas de destruição em massa iraquianas). Mesmo a Agência Internacional de Energia Atômica, toda vida utilizada para demonstrar a má vontade do Irã no que concerne a se submeter à fiscalização de seu programa, também até aqui, jamais deu o veredicto de que o Irã tem ou sequer estaria na eminência de ter a tecnologia para a fabricação da bomba atômica.

A bomba atômica é uma arma de destruição em massa que foi utilizada em conflito apenas uma vez e de maneira desnecessária. O único país a fazer uso desse instrumento de destruição poderoso e que produz o espetáculo de um cogumelo ainda mais alucinógeno do que um tonelada de qualquer chá, foi os Estados Unidos da América, país que se declara guardião da família e dos bons costumes.

Se fala muito no holocausto produzido pela Alemanha nazista e seus campos de concentração, mas o morticínio da bomba jogada contra o povo japonês não recebe a mesma atenção perscrutadora e indignada da história, este que foi um dos episódios mais vergonhosos da raça humana e que deixou sombras que jamais poderão ser obliteradas.

Como se não bastasse este episódio, os EUA promoveram durante a segunda metade do século passado um série de filmes de horror como o lançamento de napalm nos vietnamitas e o acobertamento e apoio ao genocídio da população do Timor Leste pela Indonésia. A hipocrisia e descaramento deste país, ao longo das últimas décadas da história, é tão grande que só mesmo um mentalidade adestrada e canhestra pode ainda subscrever o papel de guardião dos direitos do ser humano que este país reclama. É esta mentalidade que está agora mesmo ainda viva nos países ocidentais.

Particularmente sou contra o uso de energia nuclear que é o que Irã procura desenvolver. Ainda que seja um fonte limpa de energia, já demonstrou também ser uma fonte perigosa. Até aqui, para mim, o Irã produz um bomba atômica tanto quando o Iraque tinha armas de destruição em massa (e não será lendo jornais que a dúvida será desfeita). Mas ainda que o Irã tivesse a bomba atômica que mal haveria nisso que justifique querer estrangular seus canais de comunicação e intercâmbio com outros povos? O Paquistão tem bomba atômica, a Coreia do Norte tem bomba atômica, a China e outros países mais têm bomba atômica, por que o Irã seria uma ameaça maior que os demais, uma ameaça a quem? Certamente o maior temor é dos israelenses, diria qualquer voz que esteja a par do tema e critique a alegada prática do presidente iraniano de negar o holocausto, mas isso faria com que o Irã usasse mesmo a bomba contra os israelenses? Bastante improvável.

Hoje o Paquistão, país de maioria muçulmana, é governado por uma grupo aliado aos EUA, se um dia o poder trocar de mãos, como é que vai ficar? Todos vão temer pelo apocalipse? Sim, sim, já sei, os muçulmanos são todos terroristas, prontos a acelerar a destruição da terra que já está em curso. Faz me rir este raciocínio pedante de nossa cultura ocidentalizada e consumista vendido como enlatado do bom senso e racionalidade.

O Irã está sendo acossado porque não subscreve a cartilha de Washington, porque tem identidade própria, porque ainda reivindica, enquanto nação, soberania sobre seu destino. Outros países soberanos deveriam rechaçar essa tentativa de separação, senão o fazem, é provavelmente porque temem que Washington jogue uma bomba atômica em suas cabeças, ou porque anseiam uma fatia numa futura repartição do espólio de guerra que ambicionam conseguir.

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