By the way, Londres

Quarta-feira, 11 Novembro, 2009

Eu nao costumo ficar falando muito de minha propria pessoa aqui nesse blog, embora o blog seja meu.

Logo de inicio, como voces vem, quero pedir desculpas pela acentuacao e’ que o teclado aqui nessa paragem nao tem acentos… bom devo dizer que esta’ sendo bom nao escrever aqui muito frequentemente, embora dessa vez nao possa dizer que seja porque nao tenha coisas interessantes a dizer, mas apesar de algum material, e’ bom nao inflacionar o que se tem pra dizer  (na verdade o mundo padece de um grande inflacao, mas nao estou me referindo as politicas monetarias dos diversos paises em sua interconexao, embora esta tambem nao va demorar para mostrar sua inexorabilidade, a despeito de qualquer politica de cambio e juros).

Como na verdade so poucos amigos acessam esse blog mesmo, embora alguns topicos tenham me surpreendido pelo numero de acessos, como foi o caso do meu resumo do Manifesto do Trabalho, eu falo hoje especialmente para voces, embora eu nao esteja no programa da Xuxa.

Bom, como dizia, esse meu afastamento do portugues me parece ira’ render bons frutos, porque vez por outra eu fico pensando que vai me ajudar afiar ainda mais o gume, cortando melhor o desnecessario.

Mas o proposito deste post e’ acima de tudo esclarecer que poucos lugares podem mudar muito o que ja’ tem senso de essencia, e para mim Londres nao e’ um desses lugares, o que nao a torna menos interessante, afinal cada um vivencia sua experiencia, e nao serei eu a substimar a de ninguem.

Alem disso deixo aqui uma provocacao para que voces reflitam sobre como as coisas parecem pouco mudar em nossas paragens mesmo depois de quatro seculos e agora nao mais circunscritas ao nosso querido estado da Bahia, como provocacao essa e’ minha livre traducao do primeiro quarteto de um soneto de um ilustrissimo poeta luso-brasileiro e se nao sou mais claro aqui e’ porque quero manter o enigma.

In every place a great adviser
who wants to manage the surrounding feelings
don’t know how to take care of their own business
but still give their opinions about what is better for other people


I’m alive

Domingo, 1 Novembro, 2009

Walk down Portobello road to the sound of reggae
I’m alive
The age of gold, yes the age of
The age of old
The age of gold
The age of music is past
I hear them talk as I walk yes I hear them talk
I hear they say
Expect the final blast
Walk down Portobello road to the sound of reggae
I’m alive

I’m alive and vivo muito vivo, vivo, vivo
Feel the sound of music banging in my belly
Know that one day I must die
I’m alive

Portobello
But nine out of ten film stars doesn’t make me cry.  


“Eu vim viver no Capão” na Rádio Cultura

Quarta-feira, 30 Setembro, 2009

Meus caros, como eu havia dito para alguns, meu projeto de conclusão de curso foi selecionado para participar da 14° temporada do Programa do Estudante na Rádio Cutura de São Paulo. Esse programa, como se pode notar pelo numero da edição, é antigo e já ganhou prêmio da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) em 2005.

A progaramação deveria ser conferida pela internet, mas até agora eles não colocaram ela inteira. Em todo caso,  meu projeto vai passar no dia 7 de novembro deste ano, num sábado ás 10h da matina.

Quem quiser pode conferir pela internet, no site: Rádio Cultura Brasil (AM 1.200 kHz – www.radioculturabrasil.com.br). Depois de passar ao vivo o programa fica disponivel no site. Basta clicar em Programas e procurar por programa do Estudante.

"Eu vim viver no Capão"


“O melhor remédio”

Sexta-Feira, 14 Agosto, 2009

Para aquelas almas que vagam neste blog quero dizer que estou bastante ausente porque não tenho nada de muito interessante a dizer, naturalmente que poderia me esforçar mais para ter alguma coisa a dizer, mas acho que isso significa inflacionar e, no fim das contas, causar um prejuízo ao poder das palavras. Mas não vou me estender na metalinguagem porque isso é o que tenho feito demais.

Estou colocando aqui do lado um link para um acervo, que vem se montado, de entrevistas realizadas pelo programa de TV Roda Viva. Ele pretende disponibilizar em formato de texto todas as entrevistas já realizadas pelo programa em sua história. Junto com cada entrevista transcrita vem antes um trecho da entrevista transmitida. Considero esse um dos melhores programas da TV e de um certo modo marcou minha adolescência quando buscava ouvir esses inumeros pesquisadores e pensadores e me inteirar mais do que eles andavam pensando, hoje diria dos seus discursos, sobre coisas que também pensava ou que nem fazia ideia de que estavam sendo refletidas.

Mais recentemente pude acompanhar uma entrevista com o médio americano Patch Adams e achei um das melhores que já vi no programa. Não tinha visto o filme, e depois da entrevista é que não quis ver mesmo, então foi uma grande surpresa conhecer a figura. Não vou colocar o link direto aqui porque quem quiser já dá uma olhada no site como um todo e vê como ele é interessante, para quem gosta de discussão e debate fique claro.


‘O Leopardo’ e a mudança

Quinta-feira, 4 Junho, 2009

Comentaristas políticos, escritores, filósofos entre outros pensadores de nosso tempo, adoram citar uma frase de Tomasi di Lampedusa, escritor de um único e grandioso livro, “O Leopardo”. A já famosa é: “Para que tudo permaneça como está, é preciso que tudo mude”.

Gostaria de convidar também a minha meia dúzia de leitores a refletir sobre o sentido desta reunião de palavras. Afinal que mudança é essa que deixa que tudo permaneça? Ok, a frase não deve ser entendida tão ao pé da letra, mas vale ainda continuar a reflexão e chego então ao seguinte: é preciso que aqueles que querem a mudança definam melhor os seus termos, a ausência dessa clareza faz com que conservadores (aqui entendido lato sensu) se refiram a própria manutenção das coisas como mudança, que até tem uma expressão mais honesta: reforma.

Mas não vou me estender, a reflexão é de vocês. Eu de minha parte, acho apenas que precisamos de uma mudança até no modo de mudar, para não haver confusão.

Ainda sobre a mudança tem uma frase interessante cujo autor desconheço: “Mude, mas mude devagar porque mais importante que a velocidade da mudança é a direção”, digo interessante porque não dá pra concordar com essa frase sempre, mas é um bom lema quando se sente que se tem tempo.

Mas voltando ao ensejo desse post, gostaria de falar um pouco mais sobre o livro ”O Leopardo”. É um livro sobre o declínio – este que ‘reza a lenda’ cedo ou tarde chega – e como ele deve ser sempre postergado.

Por isso, Dom Fabrizio, o príncipe que o leitor de “O Leopardo” acompanhará em seu declínio não poderia ter dito, de outro modo, as palavras esclarecedoras e mesquinhas: “vivemos numa realidade móvel à qual procuramos adaptar-nos como as algas que se dobram sob o ímpeto das ondas do mar. Poderemos porventura preocupar-nos com os nossos filhos, talvez com os nossos netos, mas para além daquilo que esperamos poder acariciar com estas mãos não temos obrigações”. (Moral da história: nada importa mais do que a manutenção do estado das coisas, assim concluo que os revolucionários não podem ser acusados de preguiçosos.)

Explicitando o que implicitamente já pode ser sentido e compreendido tanto do declínio quanto do comportamento de manutenção, “O Leopardo” consegue a contundência quase cruel de nos colocarmos frente a frente com nossa (?) vilania e por que não dizer, no “tempo burguês”, nossa (?) venalidade. Uma venalidade que foi tão longe que, penso, deveria causar enjôos febris quando pensada em sua existência, mas que de fato escamoteada em mil e uma distrações e recalques, não produz mais que uma enxaqueca logo combatida com aspirinas.

Ainda vale apenas citar uma passagem que relaciona tudo isso com a linguagem, esse tema inesquecível!

“Aliás, essas preocupações verbais correspondiam bem aos seus próprios sentimentos em relação à paixão calculada de Tancredi, embora o irritassem quando o cansava; eram, de resto, apenas um exemplar das mil e uma astúcias de linguagem e atitudes que, há já algum tempo, era obrigado a imaginar; pensava com inveja na situação de um ano atrás, quando dizia tudo quanto lhe passava pela cabeça, certo de que todas as tolices seriam aceitas como palavras dos evangelhos e todas as leviandades como negligências de príncipe”.

? Gozado esse artifício de linguagem que empregamos para nos colocarmos todos no mesmo saco e daí retirar um padrão de conduta normal e aceitável que nos exime do que quer que seja. ‘Estou tranqüilo porque meu comportamento se não se justifica necessariamente pelo dos outros, no entanto só pode ser avaliado sobre a perspectiva do comportamento comum.’


Manifesto contra o Trabalho (VI)

Terça-feira, 26 Maio, 2009

(Post 6) A libertação é possível! 

A superação do trabalho
“A emancipação social só pode ter como conteúdo, não a revalorização do trabalho, mas a sua desvalorização consciente.” “O renascer de uma crítica radical do capitalismo pressupõe uma ruptura categorial com o trabalho. Só quando se estabelecer um novo objetivo de emancipação social num plano situado para lá do trabalho e das categorias fetichistas dele derivadas (valor, mercadoria, dinheiro, Estado, forma jurídica, nação, democracia, etc.), é que se tornará possível uma re-solidarização de nível elevado e à escala de toda a sociedade.”

Para isso é preciso ainda uma ruptura com a lógica dos lobização e da individualização, fenômenos sintomáticos da crise do trabalho, vide o principio do salva-se quem puder.

“O ponto de partida desta rotura não pode ser um novo princípio universal e abstrato, mas apenas a repulsa que cada um sente perante a sua existência enquanto sujeito do trabalho e da concorrência, e a recusa categórica de ter que continuar a funcionar assim, em circunstâncias cada vez mais miseráveis.” “O lema da emancipação social só pode ser: tomemos aquilo de que necessitamos!”

“O mal-estar existe em larga escala dentro do capitalismo, mas é reprimido para o subsolo socio-psíquico. E não é chamado à superfície. Por isso é necessário um novo espaço intelectual livre para que o impensável possa tornar-se pensável. É preciso quebrar o monopólio que o campo do trabalho mantém sobre interpretação do mundo. Neste processo, à crítica teórica do trabalho cabe o papel de catalisador.”

“Os adversários do trabalho serão acusados de não passarem de fantasistas. A história teria comprovado que uma sociedade não pode funcionar se não se basear nos princípios do trabalho, da coerção produtiva, da concorrência em economia de mercado e do egoísmo individual. Quereis, portanto, afirmar, vós, apologistas do status quo dominante, que a produção capitalista de mercadorias veio de fato proporcionar uma vida minimamente aceitável para a maioria dos homens?

Dizeis que o sistema «funciona», justamente quando o crescimento vertiginoso das forças produtivas expulsa da humanidade milhões de indivíduos que podem ficar felizes por sobreviverem nas lixeiras? Quando milhões de outros, que mal suportam a vida frenética a que os obriga a ditadura do trabalho, caem no isolamento e na solidão, narcotizam a inteligência sem qualquer prazer e adoecem física e psiquicamente?”

“Argumentaram que, com uma eventual superação da propriedade privada e da obrigação de ganhar dinheiro, cessaria toda a atividade e instalar-se-ia a preguiça generalizada. Confessais, portanto, que todo o vosso sistema «natural» se baseia em pura coerção? E que, por isso, temeis a preguiça como pecado mortal contra o espírito do ídolo trabalho? Os inimigos do trabalho, porém, não têm nada contra a preguiça. Um dos nossos objetivos principais é a reconstrução da cultura do ócio, que antigamente todas as sociedades conheciam e que foi destruída para impor uma produção sem descanso e sem sentido.”

“Não dizemos que todas as atividades se tornarão um prazer. Umas mais, outras menos. Naturalmente, há sempre algo que necessariamente tem de ser feito. Mas quem há de se assustar se com tal coisa, se a vida não for consumida nisso? E haverá sempre muito mais coisas que podem ser feitas por livre escolha. Porque faz falta a atividade, tal como faz falta o ócio. Ora, o trabalho nunca conseguiu suprir esta falta. Limitou-se a instrumentalizá-la no seu interesse, a sugá-la vampirescamente.”

“Desde que subtraídas às coerções materiais do trabalho, tipicamente capitalistas, as modernas forças produtivas podem ampliar gigantescamente o tempo livre em benefício de todos. Para quê passar horas e horas, dia após dia, nas fábricas e nos escritórios, se é possível pôr autômatos de todos os tipos a realizar a maior parte dessas atividades?”

Evidentemente, além disso, “A maior parte dos complexos tecnológicos tem de ser totalmente transformada, uma vez que foram construídos de acordo com os estritos padrões da rentabilidade abstrata. E, por essa mesma razão, há muitas outras possibilidades técnicas que não chegaram sequer a ser desenvolvidas. Embora a energia solar possa ser obtida em qualquer esquina, a sociedade do trabalho instalou por todo mundo centrais elétricas perigosas, localizadas em zonas densamente povoadas.

E, embora há muito se conheçam métodos limpos de produção agrícola, o calculismo abstrato do dinheiro verte toneladas de veneno nas águas, destrói os solos e inquina os ares. Por razões estritamente decorrentes da economia empresarial, os materiais de construção e os alimentos dão três voltas ao mundo, embora na sua maior parte essas coisas pudessem ser facilmente produzidas nas proximidades do local em que vão ser utilizadas, sem necessidade de recorrer a transportes de longa distância. Uma parte substancial da técnica capitalista é tão insensata e supérflua como o dispêndio de energia humana que implica.”

“Mas não seremos exageradamente otimistas. Não podemos saber se será bem sucedida a libertação desta forma de vida condicionada. Está em aberto a questão de saber se a derrocada do sistema do trabalho conduzirá à superação da respectiva loucura ou ao fim da civilização.”

“Os poderes dominantes podem declarar-nos loucos, porque arriscamos a ruptura com o seu sistema coercivo irracional. Não temos nada a perder, a não ser a perspectiva da catástrofe para onde esses poderes nos conduzem. Temos um mundo a ganhar, para lá das fronteiras do trabalho.”

PROLETÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES, ACABEM COM ELE!


Manifesto contra o Trabalho (V)

Segunda-feira, 25 Maio, 2009

(Post 5) O trabalho arrasta consigo seu cúmplice.

“O fim do trabalho é o fim da política”
“A crise do trabalho arrasta consigo necessariamente a crise do Estado e, portanto, da política. Basicamente, o Estado moderno deve a sua carreira ao fato de o sistema produtor de mercadorias precisar de uma instância superior que garanta, no quadro da concorrência, os fundamentos jurídicos e os pressupostos da valorização do capital – incluindo um aparelho repressivo para o caso de o material humano se insubordinar contra o sistema.”

Com maior amadurecimento, no entanto, o Estado passou também a assumir encargos sócio-econômicos, infra-estruturas de todo tipo que não podiam ser organizadas conforme o processo de capitalização da economia empresarial como saúde, educação, rede de transportes e comunicações, essas infra-estruturas não podiam adaptar-se às conjunturas de oferta e procura, hoje já não se pode dizer o mesmo com a orientação destas as exigências do capital transnacional e sua restrição aos centros econômicos (esse tema pode ser visto também no que se chama externalização dos custos).

Isso se dá porque “o Estado não é uma unidade autônoma de valorização do capital, e, portanto, não pode transformar trabalho em dinheiro, tem de ir buscar dinheiro ao processo de capitalização realmente existente para financiar as suas tarefas. Esgotado o processo de ampliação do capital, esgotam-se também as finanças do Estado”.

“Com o desemprego de massas, sempre crescente, secam as receitas estatais provenientes dos impostos sobre os rendimentos do trabalho. As redes sociais rompem-se assim que se atinge uma massa crítica de «supérfluos» que, em termos capitalistas, só podem ser alimentados através da redistribuição de outros rendimentos financeiros.”

(Eis aqui o cerne de toda a crítica a um político como Chávez, ele distribui um pouco mais a grana que antes ficaria nas mãos de uma oligarquia, e a idéia tanto aqui como lá de que se trata de assistencialismo pode até estar correta, mas ela se esquece que pela lógica vigente, tanto agora como no futuro é só o que restará a ser feito – não abandonada a lógica da sociedade do trabalho – porque já não há espaço para todos nessa lógica, mas como já se viu, isso é escamoteado com o raciocínio de que a culpa é de cada um, caso não consiga se vender no mercado o que justifica depois o abandono).

“Na situação de crise, com o acelerado processo de concentração do capital, que ultrapassa as fronteiras das economias nacionais, desaparecem também as receitas fiscais resultantes da tributação dos lucros das empresas. Os trustes transnacionais obrigam os Estados em competição pelos investimentos à prática do dumping fiscal, social e ecológico.” Em suma o Estado vai deixando de cumprir com o seu papel, e a política que é uma ação em referência ao Estado, fica sem objeto.

Rentabilidade e especulação
Para boa parte do pensamento que ainda quer a manutenção da sociedade do trabalho, sem distinção ideológica, a crise se dá por conta da especulação desenfreada nos mercados financeiros, assim o problema seria resolvido se houvesse uma volta dos investimentos para a dita economia real, a produção de qualquer insumo.

Esse raciocínio, embora coerente com a sociedade do trabalho, não percebe, no entanto, que a simulação nos mercados financeiros não é causa da crise que enfrenta esta mesma sociedade, mas sim um dos seus efeitos. O que se passa é que toda essa jogatina especulativa se baseia na idéia de que no ‘futuro’ os rendimentos reais virão. Mas como se o mundo do trabalho que dá valor as coisas está em franco processo de deterioração, como se vê?

“O capital-dinheiro, já não pode ser reinvestido de forma rentável na economia real, por isso não pode absorver mais trabalho, tem de se deslocar em força para os mercados financeiros. (…) o aumento fictício do valor dos títulos de propriedade, no entanto, só pode ser a antecipação da futura utilização real de trabalho (numa escala astronômica) – que nunca virá a acontecer -, então o embuste objetivado terá forçosamente de se desmascarar após certo tempo de incubação.”

Mas “não foi de forma nenhuma a especulação que fez parar os investimentos reais, porque estes já tinham deixado de ser rentáveis em conseqüência da terceira revolução industrial.” “Compreendendo que todos nos tornaremos inexoravelmente não rentáveis, é o próprio critério de rentabilidade que é preciso atacar”.


Folga

Domingo, 24 Maio, 2009

Hoje é domingo e estou dando a, também em falência, folga de Domingo para a meia dúzia de colegas que lêem o que publico neste blog! Mas não pensem que vai ser moleza, afinal continuamos na sociedade do trabalho para nos triturarmos. Amanhã tem mais!

PS: Por favor não vão aproveitar para assistir programa de auditório na TV, pelo amor de Deus!


Manifesto contra o Trabalho (IV)

Sábado, 23 Maio, 2009

(Post 4) Um verdadeiro canteiro de obras! Mas regar as plantas não!

Tudo é trabalho?
“Não há, em rigor, qualquer identidade entre o trabalho e o fato de os homens transformarem a natureza e se relacionarem uns com os outros em determinadas atividades. Enquanto existirem seres humanos, eles irão construir casas, fabricar roupas, produzir alimentos e muitas outras coisas, irão educar os filhos, escrever livros, discutir assuntos, construir jardins, compor música e tanto mais. Esta é uma verdade banal e evidente. O que não é evidente é que a atividade humana em si, o puro ‘dispêndio de força de trabalho’, sem que se leve em consideração o respectivo conteúdo e independentemente das necessidades e da vontade dos envolvidos, se torne num princípio abstrato que domina as relações sociais.”

Mas “enquanto princípio imperial, o trabalho não só domina a esfera da economia, em sentido estrito, como impregna toda a existência social até aos poros do dia-a-dia e da existência privada”. “Mas, fora do escritório ou da fábrica, a sombra do trabalho estende-se sobre o indivíduo moderno muito para lá desse dever interiorizado de consumo de mercadorias como finalidade autotélica. Logo que se levanta do sofá em frente da televisão e começa a agir, qualquer coisa que faça transforma-se numa espécie de trabalho.”

“O homem da sociedade do trabalho já não consegue sequer perceber que, graças à equiparação de todas as coisas pelo padrão do trabalho, todo o fazer perde o seu sentido especial e torna-se indiferente.”

“Por exemplo, com um sentimento como o luto, o sujeito do trabalho não sabe que fazer; todavia, a transformação do luto em «trabalho do luto» transforma esse corpo estranho emocional num valor conhecido, mediante o qual pode estabelecer trocas com os seus semelhantes. O próprio sonhar torna-se «trabalho do sonho», o conflito com uma pessoa amada passa a «trabalho da relação», e a convivência com as crianças transforma-se em «trabalho educativo»; todas essas atividades são assim privadas de realidade e tornadas indiferentes. Sempre que o homem moderno insiste em fazer algo com «seriedade», tem na ponta da língua a palavra «trabalho».”

Mas apesar de toda essa contaminação onde qualquer atividade com uma finalidade passa a ser entendido como trabalho, a esfera da família e do lar, da intimidade, um domínio que foi historicamente tido como feminino – mesmo sendo definido em sua relação com a sociedade do trabalho – é dela cindida. Vale à pena destacar então que introdução das mulheres no mercado de trabalho não significa mais do que a expansão deste ‘gênero’ ao ídolo trabalho, a dissociação continua existindo e esta esfera dita ‘feminina’ permanece fora do trabalho.

Mas para além dessa intocada dissociação sexual, onde a esfera ‘feminina’ não pode alcançar a forma monetária, a conciliação do trabalho com a família, pretendida pela visão burguesa, é na verdade “cada vez mais esvaziada e degradada, porque a usurpação por parte da sociedade do trabalho exige a pessoa toda, total sacrifício, total mobilidade e completa disponibilidade de tempo”, porque do reino do trabalho são expulsos todos os sentimentos e necessidades emocionais que perturbem sua eficiência.


Manifesto contra o Trabalho (III)

Sexta-Feira, 22 Maio, 2009

(Post 3) Pelo fim da coerção!

Trabalho (de) coerção social
Partindo da premissa da concorrência generalizada e do quem não trabalha não come, a ditadura do trabalho foi imposta, trata-se, é provável, do sistema de coerção social mais bem implantado da história.

“Immanuel Kant supunha, com precisão lógica, que o babuíno saberia falar se quisesse; só não falava porque temia ser recrutado para o trabalho. Esta elucubração grotesca lança uma luz reveladora sobre o Iluminismo. O ethos repressivo do trabalho da modernidade, que, na sua versão protestante original, se baseava na misericórdia divina e, a partir do Iluminismo, na lei natural, adotou a máscara de ‘missão civilizadora’.”

No fundo, sente-se agora […] que um tal trabalho é a melhor polícia, que retém cada indivíduo pelo freio e que sabe impedir com firmeza o desenvolvimento da razão, do desejo e do prazer da independência. Pois faz despender enorme quantidade de energia nervosa, e subtrai essa energia à reflexão, à meditação, ao sonho, à inquietação, ao amor e ao ódio. Friedrich Nietzsche, Os Apologistas do Trabalho, (Aurora), 1881.

Na história dessa imposição, alias, os movimentos operários e os partidos de esquerda cumpriram papel de vanguarda “o programa de todos os «partidos dos trabalhadores» sempre foi somente ‘libertar o trabalho’, mas não ‘libertar do trabalho’.” A crença das esquerdas de uma contradição entre capital e trabalho, embora real na medida do poder que cada um detém em sua luta interior na sociedade do trabalho, não ultrapassa o dogma do trabalho assim como não alcança a autodeterminação da produção.

“Em última análise, o que se produz, para que fins e com que conseqüências, é assunto absolutamente indiferente tanto para o vendedor da mercadoria, que é a força de trabalho, como para o respectivo comprador.” “Que a mercadoria exija um uso concreto, e que este eventualmente seja destrutivo, é coisa que não tem o mínimo interesse para a racionalidade da economia empresarial (…)”.

“Porque na democracia (o ‘ganho’ histórico ‘dos movimentos operários’) tudo é negociável, menos o caráter coercivo da sociedade do trabalho, que é um pressuposto axiomático. O que pode ser debatido são apenas as modalidades e as formas da coerção. Há sempre a escolha entre o Omo e o Persil, entre a peste e a cólera, entre o descaramento e a estupidez, entre Kohl e Schröder.”

O que importa ainda destacar é que a antiga relação do trabalho com a coerção social estava presente na consciência anterior ao seu reino como se podem ver nos fósseis da linguagem: “No latim, «laborare» significava algo como «cambalear sob uma carga pesada», e em sentido geral designava o sofrimento e o vexame do escravo. As palavras românicas «trabalho», «travail», «trabajo», etc., derivam do latim «tripalium», uma espécie de jugo utilizado para torturar e castigar escravos e outros indivíduos destituídos de liberdade. Na expressão idiomática alemã «Joch der Arbeit» («jugo do trabalho») ecoa ainda esse sentido.”

Esta relação agora pode ser obliterada “porque a generalização do trabalho foi acompanhada pela «objetivação» do moderno sistema de produção de mercadorias: a maior parte dos indivíduos não está debaixo do chicote de um senhor, individualizado como pessoa. A dependência social tornou-se uma conexão abstrata interna do sistema – e por isso mesmo tornou-se total. Ela pode ser detectada em toda a parte, mas por isso mesmo é praticamente inapreensível. Quando todos se tornam escravos, todos se tornam simultaneamente senhores – traficantes de escravos e fiscais, mas traficando-se a si próprios e fiscalizando-se a si mesmos. Todos obedecem ao ídolo invisível do sistema, o «Grande Irmão» da valorização do capital, que os mandou para o «tripalium».”

É por isso que soa irônico o papel da elite detentora do capital na sociedade do trabalho: “Em toda a história, nunca houve uma casta dominante que levasse uma vida tão pouco livre, tão deplorável, como os acossados executivos da Microsoft, da Daimler-Chrysler ou da Sony. Qualquer senhor feudal sentiria o mais profundo desprezo por tal gente. Porque, podendo ele entregar-se ao ócio e dilapidar a sua riqueza em quantas orgias lhe apetecesse, as elites da sociedade do trabalho não têm o direito de desfrutar de nenhuma pausa.”